Estimular é mais eficaz que criticar

EduardoPor Lúcio Menezes (escrito em setembro de 2002)

É curioso como estamos mais propensos a ver os aspectos negativos e as falhas das pessoas do que suas qualidades.
Essa postura é estimulada, ainda que de forma inconsciente, em várias áreas da vida, gerando um reforço constante e persistente. Duvidamos de que seja possível ser ou agir de outro modo.
Na escola, por exemplo, as avaliações destacam o erro. Ainda que a nota seja muito boa, reforça-se a incapacidade de alcançar a nota máxima, a perfeição. “Filho, muito bem. Mas se tivesse um pouco mais de atenção…”
Tudo bem, sei que desejamos o melhor para os filhos, que a competição é acirrada, que é preciso matar um leão todo dia, etc., etc., etc.
O problema reside em querermos alcançar o objetivo de preparar filhos para a vida competitiva com um método falho.
É, pois quando insistimos muito em corrigir cada detalhe da fala, do comportamento, do jeito de estudar e ser dos nossos filhos, acabamos por desestruturá-los emocionalmente. Exatamente o contrário do que desejamos.
As críticas se tornam tão freqüentes que a criança começa a duvidar de que tenha capacidade para fazer algo bom, não merecedor de críticas e restrições.
Dr. John Gottman, PhD, em seu livro Inteligência Emocional e a Arte de educar filhos
elabora melhor o que estou tentando dizer:
Nossa pesquisa mostra claramente que a depreciação prejudica a comunicação entre pais e filhos e a auto-estima da criança. Nos estudos de laboratório que  realizamos com famílias, vimos pais tratando os filhos de forma depreciativa, como, por exemplo, arremedando em tom de escárnio o que eles dizem. Durante o exercício de video game, alguns pais não deixavam passar nenhum erro dos filhos,
esmagando-os com uma bateria de críticas.
Outros tomavam o jogo da mão dos filhos, mostrando que os achavam incompetentes.(…) No acompanhamento das famílias, realizado três anos depois, verificamos que as crianças tratadas desta forma desmerecedora e desrespeitosa pelos pais eram as que estavam tendo mais problemas com os estudos e as amizades. (…) Segundo os professores, tinham mais problemas de comportamento e, segundo as mães, ficavam doentes com mais freqüência.
O incentivo pelas muitas qualidades é mais eficaz do que concentrar-se em corrigir todo e qualquer erro ou limitação.
Um exemplo talvez torne isso mais claro. Estamos, eu com um grupo de amigos (de 38 a 55 anos, mais ou menos), nos aventurando na aprendizagem de um novo esporte – o tênis.
Mesmo não sendo “professor”, estou passando pra eles alguns golpes e técnicas que aprendi nos últimos 6 anos. Como qualquer coisa nova, os desafios da aprendizagem são enormes, quase suficientes para fazer desistir quem não for bem disciplinado. É preciso aprender a andar e a correr corretamente, coordenar
movimentos de pernas, tronco, braços, cabeça, olhando para uma bola pequena que insiste em se aproximar velozmente! É preciso acertar a bola à frente, com precisão suficiente para fazêla voltar ao campo adversário e, ainda por cima, superando uma rede colocada no meio da quadra. É preciso acertar um saque uma
área pequena da quadra, aprendendo movimentos coordenados que exigem todo o corpo.
Os primeiros dias (e semanas) são uma verdadeira tragédia! Há tudo para corrigir e muito pouco para elogiar. Somente com muito incentivo, muito elogio e motivação as pessoas estarão dispostas a prosseguir.
Algumas semanas de treinos, no entanto, e é ótimo ver o progresso que todos  conseguem. Certamente a vida inteira precisarão melhorar, aperfeiçoar, buscar novos golpes. Assim como na vida!Se ficássemos concentrados nos erros e nas inadequações iniciais não poderíamos avançar, crescer e conquistar novos espaços. Aprender exige coragem de se expor, de correr desajeitado, de errar bolas ridículas, de rir e aprender com os erros. Gottman complementa, “Aconselho aos pais que fiquem atentos aos hábitos insidiosos da crítica, do sarcasmo e do menosprezo. Cuidado para não ridicularizarem seus filhos. Dêem-lhes mais espaço à medida que procuram adquirir novas aptidões, mesmo que isso signifique deixá-los cometer alguns erros. Evitem rotular os defeitos. Especifiquem ações e não um comportamento caricatural. Digam: ‘Não se trepa nos móveis na casa da vovó’ em vez de ‘deixe de ser mal-educado!’. Como pais, precisamos investir na confiança dos filhos. Eles precisam olhar para nós como referencial de cuidado, como alguém que aposta todas as fichas neles. Devem estar certos que os amamos pelo que são, acima e além de problemas e dificuldades na escola, por exemplo. Eles devem perceber que não precisam “comprar” nosso amor com certos comportamentos, mas que devem vencer porque é melhor para todos. “A criança”, diz Gottman, “quer se identificar com os pais e costuma acreditar em qualquer coisa que eles digam a respeito dela. Se os pais  desmerecem ou humilham os filhos com piadas, excesso de críticas e intromissões, perdem a confiança deles. E, sem confiança, não há intimidade, ninguém se abre e é impossível trabalhar em conjunto para solucionar problemas.” Um caminho melhor para preparar os filhos para vencer numa sociedade competitiva é investir na construção de uma vida emocional sadia, com boa auto-estima e capacidade para correr os riscos necessários ao aprendizado sem vergonha dos passos iniciais. Tal caminho passa pelo elogio, pelo incentivo, pela ajuda e pelo reconhecimento do valor dos filhos. 

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