Comendo como um touro!*

Lúcio Cesar Menezes

*texto escrito em outubro de 2003, em homenagem ao meu sogro Francisco Ladislau Ribeiro, o “Seu Ribeiro”.

foto LM

Há certas coisas no casamento que podem levar à loucura. É, isso mesmo, à loucura. Não é por maldade (hoje eu sei), mas não interessa – mexe profundamente com suas mais íntimas manias. Se tem um negócio que me tira do sério é ficarem me oferecendo comida.

– Quer mais um pouco? Tá uma delícia! Você vai gostar.

Não satisfeitos em ficar oferecendo após uma recusa (delicada) inicial, começam a apelar para chantagem:

– O que foi, não está gostando da comida? Está ruim assim? Puxa, fiz com tanto carinho…

E por aí vai. Constrangimento. Pressão. Lembranças da infância em que minha mãe não parava de me forçar a comer. Sabe como é, filho saudável tem que ser gordo, rechonchudo, com cara de bolacha. É sinal de riqueza, que é bem tratado. Caso para psicanálise. Caramba, que culpa eu tenho de não ter fome? Como por necessidade, só isso. Não sonho com comida, não fico com água na boca por nenhum prato. Só gosto mesmo é das sobremesas. A comida salgada é um pretexto para doces e tortas. Pronto. Qual o problema? O problema é que casei com uma gata que o pai adorava comer. Estômago de avestruz.

– Tá com fome, pai?

– Não minha filha, mas se tiver algo aí traga!

E lá ia Seu Ribeiro comer com prazer, com intensidade, lambendo os beiços. Não sobrava nada, nem pra remédio. O sonho de qualquer cozinheira. Com ou sem tempero, doce ou salgado, quente ou frio. O homem traçava tudo com um prazer incomparável. Casamos e Mirinha começa a fazer almoços e lanches para mim. Boa comida, farta, abundante, bem feita. Toda empolgada, não vê a hora de experimentar comigo a mesma alegria que tinha ao ver o pai comendo. Chego, sento, dou um beijinho e começo a por a comida no prato. Um pouco de cada coisa, mal suja o prato. Ela olha. Inicialmente surpresa. Depois, desapontada.

– A comida está boa? pergunta ela.

– Claro. Respondo.

– Só vai comer isto? Põe mais! Você vai gostar. Toma, prova este aqui, tá uma delícia…..

Buuuuuuuuuuummmmmmmmm! Os níveis de adrenalina vão a mil! O sangue começa a ferver. Fico nervoso, começo a recusar (não tão delicadamente) e o clima fica tenso.  Nuvens e trovoadas no ar. Tento explicar e as coisas vão piorando. Vai sobrar comida e o clima ainda vai ficar ruim. Ruim pros dois, nada do que foi planejado.

Os anos foram passando e fomos nos adaptando. Nos amoldando. Cedendo aqui e ali. Mirinha perdeu o encanto com a cozinha (acho que nisto ela deu sorte) e aprendeu a se controlar nas ofertas. Eu tento comer um pouco mais (quase nunca consigo!). Prefiro meu velho pão com manteiga e café com leite no jantar às outras opções freqüentes: cuscuz com carne ou ovos, sopas, caldos, bolos, tortas salgadas etc. Ela ainda sofre, mas se segura.

Quinze anos se passam e o Seu Ribeiro precisa passar uns dias lá em casa. Teve um AVC (acidente vascular cerebral) e precisa de cuidados constantes. Está doente, mas não perdeu o apetite. Continua comendo com prazer e intensidade de sempre. Precisa ver o brilho nos olhos da Mirinha!

– Tá vendo, amor! Agora você entende, não é!

Pois é, Seu Riba, o senhor me apronta cada uma! Almoçando junto com o senhor já estou até começando a ter fome, penso até em repetir! Que coisa…

Larissa e Lucinho estão curtindo muito o avô. Principalmente quando ele começa a chamá-los para ver se a comida já está pronta.

– Cadê? Cadê?

– Cadê o que Vô? Pergunta o Lucinho,  meio desconfiado. E o vô coloca a mão na frente da boca e faz sinal de que quer comer logo.

É isso. Estou aprendendo muito com o Seu Ribeiro.  Todos estamos. Não podia ter sido melhor a vinda dele para nossa casa.  Acho que vou, finalmente, engordar um pouco. Depois de quinze anos de casado!

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