Ciclos de vida: bons tempos voltam, maus dias passam

Lúcio Cesar Menezes

Vez por outra reaparece a pergunta: como algumas pessoas conseguem ter um casamento longo e interessante?

Ao lado da pergunta já há uma resposta pronta: que nada, casamentos longos existem, mas não são interessantes! São resultado apenas de comodismo. Ou seja, há uma visão estabelecida e reforçada culturalmente pela mídia (jornais, revistas, romances) de que as mudanças e impasses de qualquer relacionamento só podem ser “resolvidos” pela ruptura.

Imaginar que as pessoas negociem, discutam opções, cedam, reavaliem posições e  mudem é algo fora da normalidade. Uma esquisitice, um jeito caipira de lidar com a vida. Muito mais moderno é reconhecer que houve uma mudança grande no casal e partir para novo relacionamento, deixando para trás a trabalhosa opção de ajustar-se às mudanças. Se olharmos bem para os casais que cultivam um relacionamento duradouro poderemos perceber que há uma premissa fundamental: a vida é um processo onde os maus momentos passam e os bons podem retornar.

É uma constatação até bem simples, embora sua aceitação seja capaz de mudar drasticamente a visão de mundo atual. A cultura das refeições rápidas, das soluções automáticas, do mínimo esforço está levando as pessoas a tratarem dos relacionamentos de forma superficial, aceitando apenas as soluções instantâneas e que mais lhe agradem.

Agindo assim, pouco espaço resta para lidar com as mudanças naturais e com o constante desafio de recriar a relação.   Pessoas que não estão dispostas a rever conceitos, adaptar-se, reestruturar sonhos e projetos costumam ver a vida de forma linear – vai avançando e sempre piorando, se desgastando com o tempo, perdendo viço, morrendo um pouco a cada dia. É uma visão que não abre alternativa para recomeços, novidades, transformações, recriações. Os tempos bons serão sempre os que ficaram para trás, retirando do futuro qualquer sensação de esperança.

A única saída, então, para os que vêem a vida de forma linear é a separação. A morte do relacionamento como porta para uma nova fase, até que novamente tudo se dissolva na frustração de não se poder sair da armadilha do tempo.

Casais (pessoas) bem sucedidas vêem a vida como um ciclo – bons e maus momentos acontecem, vão e voltam, reciclando as pessoas e colocando à prova conceitos e valores. Não perdem a esperança nas crises, mas acreditam num renascimento constante, diário, nem sempre fácil, mas possível.  Olham para frente e não duvidam que dias melhores virão. Entendem que a nova situação exige esforço de todos e não têm a ilusão de pretender ser inflexíveis, imutáveis.

Acreditam na morte de circunstâncias e momentos da relação, mas não permitem que as dificuldades sufoquem o relacionamento. Renascem em novas circunstâncias e recriam um novo casamento a cada fase da vida. Em vez de buscar realização num novo relacionamento, têm coragem de rever suas atitudes e conceitos para transformar o casamento atual. Sabem que bons momentos estão mais ligados a atitudes positivas que ao acaso ou a paixões avassaladoras.

Um casamento longo não pode ser visto apenas pelos anos que passaram, pelo aspecto cronológico. Um casamento longo e interessante é uma relação de constante mudança, morte e renascimento, erros e acertos, perseverança, esperança e disposição para recomeçar a cada dia.

Um casamento sadio é uma sucessão de recomeços, ajustes e sintonia. É compreender que mudamos muito, que alternamos momentos de carência com momentos de força, que desejamos ser amados e nem sempre sabemos amar.

Ser bem casado é ser capaz de desenvolver uma esperança inabalável de que os maus momentos passam, ensinam, reciclam, nos ajustam e nos tornam mais dependentes uns dos outros.

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